Desilusão (3)

Pela blogosfera "adentro" encontram-se várias opiniões sobre este assunto.
Claro que não perco tempo a ler textos de pessoas cuja opinião é contrária à minha.
Não, não é porque não tenha interesse em saber que argumentos utilizam. É apenas porque já o fiz várias vezes mas o resultado final foi apenas uma grande irritação que não me faz nada bem à saúde (e uma rapariga da minha idade tem de se poupar a certas coisas).

Contudo, entre os que se pronunciam a favor do casamento, a propósito do agendamento para dia 10 de Outubro da discussão na Assembleia da República, tenho encontrado pessoas que dizem algo do género:

«pelo menos, já se começou a falar nisso, dentro do parlamento, com alguma seriedade, o que é um sinal positivo.»

Quando leio este tipo de comentários, perdoem-me a sinceridade (mas afinal para que serve um blog senão para escrever o que realmente vai cá dentro?), o primeiro pensamento que me ocorre é

«É pá! Não me fodam!»

Se gostam de comer areia, bom para vocês mas não andem por aí a espalhar esse discurso ridículo.

Pessoas que acham que em 2008, em pleno século XXI, num país que se diz civilizado, num Estado de Direito democrático que têm os direitos fundamentais dos seus cidadãos garantidos por uma Constituição e por uma Declaração Europeia dos Direitos do Homem (ambos passíveis de aplicação coerciva por tribunais), devemos considerar uma vitória o facto de este assunto estar a ser discutido devem ter problemas de situação temporal.

É quase como, depois de ter sido inventado e estar tão divulgado o computador portátil, ir a uma faculdade de um país desenvolvido dar máquinas de escrever aos alunos e dizer «pronto, já é bom, pelo menos já têm com que escrever».

É pá! Não me fodam!

10 sobreviveram ao "lápis azul":

antónio fogaça disse...

cara gayja. em primeiro lugar, boa tarde.

a citação que colocou a laranja no seu post é minha. e respondo-lhe da mesma forma q respondi no blog de onde a retirou:

é ÓBVIO q este é um assunto q já devia estar resolvido há muito tempo. não nos podemos esquecer, no entanto, q portugal tem um défice de consciência democrática e social de cerca de 30/40 anos. podes-me dizer q espanha tb. ok, mas o zapatero é mais à frente q o sócrates.

por isso, mantenho: considero positivo a discussão estar lançada. antes isso, q n haver sequer discussão. considero positivo este assunto estar a causar polémica dentro do ps, que, quer gostemso ou n, é o único partido (pelo peso parlamentar q tem) de conseguir levar por diante uma reforma neste sentido.
foi este governo q alterou a lei do aborto, é este governo q quer alterar a lei do divórcio.

e antes q comecem a mandar bocas: n, n sou do ps!

n conheço as propostas do BE e do PEV, pelo q n me vou pronunciar.

hipocrisia? é, sim senhor. isto de se votar contra uma proposta de outro partido e dps votar a favor de uma quase igual do próprio partido é a politica no seu pior.

mas continuo a dizer: prefiro q haja discussão, a n haver nada e as coisas se manterem iguais.

e se vocês querem realmente mudar as coisas, façam tb por isso. a sociedade civil portuguesa é um bocado amorfa, mas lancem o debate. n só p dentro, mas tb lá p fora. escrevam p os jornais. façam folhetos e ponham-nos a circular nas ruas.

apesar de gostar de um bom debate de ideias, pq acho q é assim q crescemos, n pretendi lançar polémica (ao contrário do q as amigas da viagem possam pensar). desta vez n foi a intenção. sou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, assim como sou a favor da adopção no mesmo registo. no entanto, n se pode querer o mundo de um dia p o outro. mesmo as revoluções q foram transformando esta nossa sociedade levaram o seu tempo.

cumprimentos.

antónio fogaça disse...

esqueci-me de acrescentar na resposta, q, nesta matéria, sou contra o referendo (assim como tb o fui na questão do aborto), pelo q gostaria q se fizesse a lei e pronto! assim é q faz sentido.

subtilezas disse...

eu sei que para ti a questão é fundamental, eu sinceramente caguei no casamento, e se eu mandasse proibia o casamento, entre sexos diferentes e iguais, acho q é um disparate completo. (sou memo má, tou a brincar, mas a brincar a brincar...)reconheço que a lei é para todos e neste caso há discriminação. se casam uns tb se devem casar os outros. adopção, pah, os mesmo direitos, tudo. isto é enervante! isto não é nenhum absurdo.enfim, mas há tanto ainda a desbravar, ontem estava a responder ao questionário da escola do meu filho (3ª classe) e uma das perguntas era a etnia (tipo: cigano, asiático, etc) eu claro respondi uma opção que não existia: ser-humano. depois religião: católica, protestante e outras. eu respondi:nenhuma.
às vezes pergunto me se eu é q sou doida. beijos gayja, não te enerves, ainda há muito caminho a percorrer, mas chegamos lá.

Maísha disse...

olá. estava pronta para entrar aqui e escrever simplesmente que acho que és genial. sendo assim tenho mais um comentário a acrescentar: penso que o que o antónio escreveu é suficientemente contraditório para ser fecundo e nos ajudar a perceber qual é aqui a questão de base. se por um lado diz que é valoroso a "discussão" estar instalada na bancada parlamentar, o que compreendo, por outro afirma que é contra o referendo nesta matéria. ora, parece-me q no fundo o antónio também está farto da inércia política em portugal. o facto de referir o zapatero confirma-me isto. e julgo q o q a gayja quis dizer é também precisamente isso: estamos fartos. estamos desiludidos. queremos viver de acordo com uma realidade que nos faça sentido e não ser obrigados a vergar-nos perante uma profunda hipocrisia retrógrada instalada desde há anos que começamos a sentir-nos incapazes de combater. isto existe a muitos níveis. e estamos todos fartos.

pessoalmente, o que sinto é isto: ninguém tem o direito de violar persistentemente a minha dignidade. por vezes pergunto-me que ser humano sou eu. como se tivesse de me relembrar «sim, eu sou». é a consequência de viver socialmente na sombra. é preciso um enorme esforço para evoluir naturalmente sem nos alienarmos. se é que me compreendem.

e foda-se.

Gayja disse...

cara subtil, para mim a questão não é fundamental. Pelo menos não no sentido de ser um enorme desejo meu casar. Tenho apenas um enorme desejo de poder optar por o fazer ou não.
O teu comentário trouxe-me à memória os tempos de escola em que também preenchi questionários desse género... Era das poucas alturas em que me lembrava que havia pessoas que tinham religião (uma realidade que para mim era estranha) e que os meus professores ficavam surpreendidos quando não viam a cruzinha no "católica"...
Sim, ainda temos um longo caminho pela frente... ;)

Gayja disse...

António Fogaça, boa noite.

Tem toda a razão, o comentário que citei é da sua autoria e encontrei-o no blog "viagem lés". Até ponderei colocar o respectivo link mas, como deve ter percebido, não pretendi referir-me ao seu comentário em particular mas a uma generalidade de pessoas que proferem afirmações semelhantes.
Em resposta a este seu comentário, reitero o que disse no post.
Vejo muitas discussões, muitos debates, muitas análises, muitas teorias, muitas justificações e muita "tolerância" em redor deste tema quando tudo isso não passa de um sinal do quão desrespeitados ainda somos (nós, os cidadãos de segunda) hoje em dia.
A questão é só esta: este não deveria ser um assunto aberto a discussão! É tão descabido quanto agora vir discutir se deveria ou não existir limites legais aos casamentos entre pessoas de raças diferentes.
Certas coisas, simplesmente não são passíveis de debate sério! Ponto final.
E se, em 2008, continuam a achar que o facto de se iniciar em determinados meios o debate em torno da questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo tem algo de positivo, então está tudo muito mal! Muito mal mesmo!
Citando o próprio António, «gostaria q se fizesse a lei e pronto! assim é q faz sentido.»

Melhores cumprimentos.

Gayja disse...

maísha, «estamos fartos. estamos desiludidos. queremos viver de acordo com uma realidade que nos faça sentido e não ser obrigados a vergar-nos perante uma profunda hipocrisia retrógrada instalada desde há anos que começamos a sentir-nos incapazes de combater. isto existe a muitos níveis. e estamos todos fartos.»
E com estas suas afirmações eu já fazia panfletos e ia distribui-los para a rua!! É mesmo isso!

Maísha disse...

lol, na verdade receio ser demasiado panfletária... mas sim, é isso.
queria dizer mais uma coisa em relação a isto:

"cara subtil, para mim a questão não é fundamental. Pelo menos não no sentido de ser um enorme desejo meu casar. Tenho apenas um enorme desejo de poder optar por o fazer ou não."

ninguém se engane: a questão do casamento homossexual representa muito mais do que obter um direito.

sara cacao disse...

fodam-nos, mas dentro de quatro paredes, no leito e com a pessoa tal. de preferência a concelebrar o acesso ao casamento civil.

Gayja disse...

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«A Sara nunca diz (escreve) palavrões! Deve estar mesmo chateada...»